Bom Advento!

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Estar de vigia

A liturgia do 1º Domingo de Advento exorta-nos à vigilância. “Vigiai, para que estejais preparados”. Pode parecer uma “sentença” ameaçadora, quase um alerta vermelho. De facto, muitas vezes na vida, apenas mudamos comportamentos e atitudes depois de grandes sustos ou alertas vermelhos. Isso acontece quer na nossa vida pessoal (como o deixar de fumar, o decidir ter uma alimentação mais saudável, o acompanhar mais o estudo dos filhos, o estudar mais, o dar mais tempo à Comunidade….e tantos e tantos exemplos que cada um terá), quer na esfera social e política, nacional (economizar meios, integrar melhor políticas e sectores), e global (os impactos ambientais dos nossos modelos de produção e padrões de consumo insustentáveis, que vão dando origem a políticas “verdes”). Neste domingo, Jesus relembra-nos a história de Noé e do dilúvio, e a forma como todos os que, distraídos, não o ouviram e não entraram na arca, foram arrastados. Esta história, trazia-me à memória outras histórias, de barcos e tempestades. As histórias de hoje, de tantos e tantos irmãos nossos de África que embarcam desesperados por chegar à Europa, guiados pela Esperança de uma vida melhor ou da possibilidade de uma Vida. E tantos deles dão a sua vida nesse sonho, que os arrasta ao fundo do Mar… e não estamos no tempo de Noé, estamos no século XXI. Quem é que anda distraído? Quem é que é arrastado? Onde está Noé? Onde está Jesus?

Jesus vai nascer de novo e convida-nos uma vez mais a nascer de novo, com Ele, com Nicodemos, com Lázaro, com a Samaritana, com tantos homens e mulheres nesta História da Salvação. Salvação, é disso que se trata. “Senhor, salva-me!” grita Pedro, quando ao ir ter com Jesus no meio da noite tempestuosa, caminhando sobre as águas, se afunda no seu medo. Jesus agarra-o, sobem para a barca e o vento cessou.

Um apelo à nossa atenção ao Mundo, ao Outro, a nós mesmos

Estar de vigia, é uma atitude muito positiva, de cuidar do outro, estar atento. O Papa Francisco, desde o início do seu Pontificado, desafia-nos a isso mesmo, a sermos cuidadores uns dos outros e da Criação. Na sua visita a Lampedusa, impelido pela solidariedade com tantos imigrantes que ali chegam ou tentam chegar, apela também a uma vigilância.

Nesta manhã quero, à luz da Palavra de Deus que escutamos, propor algumas palavras que sejam sobretudo uma provocação à consciência de todos, que a todos incitem a reflectir e mudar concretamente certas atitudes.(…) Muitos de nós – e neste número me incluo também eu – estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como aquela a que assistimos. (Homília do Papa Francisco em Lampedusa, Missa pelas vítimas dos Naufrágios, 8 de Julho de 2013)

Pois penso que a vigilância a que Jesus nos chama, é esta mesma: estar em permanente estado de atenção aos outros, o que implica uma atitude estrutural de discernimento, de nos sabermos parte integrante deste Mundo, criados para constantemente o transfigurar: num Mundo mais justo, com políticas solidárias e centradas na dignidade de cada Pessoa (até todas as Pessoas, todas são chamadas e devem entrar na Barca e chegar a Bom Porto), com relações fraternas intrinsecamente e essencialmente guiadas pelo Amor. Amor, Justiça, Verdade – três bons critérios para ir aferindo, no dia-a-dia de casa, família, trabalho, sociedade, política, o meu/ nosso Estado de Vigia pelos irmãos e por mim próprio. Este afinar do meu estado de alerta (que passa a não ser vermelho, mas verde – de estado “on”, sempre ligado à realidade e ao princípio e fim da nossa Vida – um alerta ecológico), é a política mais verde que poderemos adotar, garantia segura de uma ação transformadora.

Um apelo a abrir horizontes, a nascer do novo, à Salvação

Tomar estes critérios, sem a abertura a um horizonte maior que a própria realidade que alcançamos, levar-nos-ia ao grande perigo e tentação de nos valermos a nós mesmos, concentrados na nossa agenda: os nossos planos e boas intenções, os nossos programas políticos, as nossas pesquisas científicas, os nossos padrões e indicadores, a nossa realidade, o nosso país. Tudo isto é precioso. Mas de nada vale, se o nosso estado de alerta não for também esta experiência de Abertura a Deus ou a uma dimensão que nos transcende; de Abertura aos outros e a cada realidade, ao valor intrínseco do Ser Humano e da Criação. É esta abertura que permite a Comunhão com toda a Humanidade. Ao afundar-se, Pedro pede ao Senhor que o salve. Este é o estado da nossa existência, onde vamos ciclicamente caminhando e caindo. A nossa Abertura e Atenção são a forma de nos salvarmos, isto é, de irmos cada vez mais longe na nossa Felicidade, que só se cumpre plenamente com todas as histórias de salvação.

“Está perto a salvação”, diz-nos S. Paulo este domingo. Mas que Salvação esperamos? Quando vivemos saltando de emergência em emergência, provavelmente o que constantemente pedimos é Senhor, salva-me do dilúvio, da tempestade!… se estivermos atentos, percebemos que os dilúvios e tempestades fazem parte da vida e que sempre, de uma forma ou de outra, vão aparecer. A questão não está em sermos salvos destas aflições. A questão está (e era a questão de Noé), em estarmos preparados quando a tormenta vier (seja a doença, a crise, a morte). A Salvação está no saber viver bem tudo o que vai acontecendo. E também no saber respeitar e cuidar tudo o que nos é confiado.

A Salvação é uma Vida, que vem uma vez mais (e sempre!) ao nosso encontro. O Senhor Jesus, feito Pessoa, quer ajudar-nos a nascer de novo, com Ele. Quer ajudar-nos a adotar o Seu estilo de vida. Rezo pela nossa Abertura e Atenção a este Acontecimento, que vai transfigurando a História, tendo no horizonte este Mundo que espera este Encontro. Para que todos aqueles que se lançam ao mar, procurando a Esperança, encontrem respostas e não sejam arrastados. Cada um saberá que respostas é chamado a dar, em que mar é chamado a navegar, que alertas deve integrar, que espaço deve Abrir, para que este Encontro aconteça.

Margarida Alvim, in Advento 2013, FEC, Fundação Fé e Cooperação

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