Pessoas Laudato Si – Catherine d’Hommée

 

02_2aCatherine Marie d’Hommée nasceu em França em 1931, mas foi na Casa Velha que passou (feliz) mais de metade da sua vida e onde morreu a 27 de Janeiro de 2010, faz hoje 9 anos. Em 1965 casou com Henrique Alvim e trocou Paris por Vale Travesso, afirmando com frequência já estar aqui no Paraíso. A falta de electricidade e a vida espartana não a assustaram, pelo contrário, fizeram-na ainda mais agradecida com cada pequena coisa, experimentando o “quanto menos, tanto mais” (Laudato Si, 222).

Catherine era a terceira de seis filhos. Tinha 8 anos quando começou a 2ª Guerra Mundial. O seu avô materno morreu a combater na 1ª Guerra Mundial. Estudou piano, carreira que acabou por não seguir. Era uma apaixonada por jardins e flores, dos quais aprendeu a cuidar com a sua avó Marguerite. Os pais tinham uma casa na pequena aldeia normanda de St. Leonard, na baía do Mont St Michel, lugar onde frequentemente se refugiava e que muito a alimentou espiritualmente. Foi com todas estas raízes e história que chegou e cuidou da Casa Velha (o seu grande piano fez parte da bagagem). Na verdade, estas são as raízes profundas do que a Casa Velha é hoje, marcada pela sua abertura, acolhimento, confiança, criatividade, beleza, solene simplicidade, cuidado de cada detalhe, relação com a natureza e cuidado das pessoas, fé e sentido de pertença, de gratidão, de responsabilidade.

O amor com que viveu a sua vida e se dedicou à sua família e aos outros, transparecia o modo como se sentia amada e cuidada por Deus. E isso transformou necessariamente a Casa Velha, cada um de nós que cá nascemos e tivemos o privilégio de crescer com uma educação  e espiritualidade ecológicas, mas também os que cá passam nos últimos anos, com a nova Casa Velha (Ecologia e Espiritualidade).

Para além de jardineira, Catherine (a francesa, como era conhecida no Vale Travesso) tornou-se apicultora e pastora, e nós com ela! Cuidar das abelhas, na hora de maior calor, não era fácil, mas hoje em dia agradeço ter podido assim aproximar-me da maravilha e grandiosidade desta pequena criatura que nos ensina tanto sobre sentido de Comunidade e Cuidado. Era frequente termos borregos recém-nascidos na cozinha, por terem sido rejeitados pelas mães. Que festa! Ao domingo, cabia-nos ir em família, com um grande piquenique, pastar as ovelhas, que acabou por ser a forma de aprender ao vivo as parábolas do Bom Pastor, que enchem hoje a Capela da Casa Velha, antiga garagem.

Cuidava também das pessoas. Visitava pessoas mais necessitadas da aldeia (com as Conferências de S. Vicente de Paulo), dava catequese aqui na Casa Velha (tal como acontecia com a nossa avó paterna) e a casa estava sempre aberta a quem viesse. No verão recebíamos grupos de jovens de França, em peregrinação a Fátima, que por cá acampavam várias semanas. A Nossa Senhora que está na Capela do Bom Pastor foi trazida por eles.

Quando a Catherine e Henrique casaram e vieram viver para a Casa Velha, a casa estava fechada e teve de ser recuperada, com grande esforço e generosidade dos irmãos do meu Pai. A casa era de vários irmãos, gerida comunitariamente pela família.  A muita vida que ganhou, foi declinando a partir do fim dos anos 90. A nova Casa Velha surge a partir do auge desse momento de crise, que culminou na morte de Catherine em 2010. Tocava-nos a nós cuidar de algo tão central nas nossas vidas. O cuidar da família, das pessoas e da casa, gerou e continua a gerar esta Casa Velha – Casa Comum, onde experimentamos mesmo antes da sua edição em 2015, o sentido da Encíclica Laudato Si. Hoje em dia o seu piano voltou a tocar, com os netos e também alguns Atravessados (voluntários da Casa Velha) que tocam as suas partituras. Música celestial.

Passados 30 anos das últimas férias em França, em 2017 voltamos (nós 4 irmãs) a St Leonard, numa peregrinação às raízes, para recuperar memórias e sobretudo estarmos juntas em Boa Terra (num regresso ao seio materno), um teambuilding importante para podermos cuidar juntas da Casa Velha. O actual dono da casa dos nossos avós deixou-nos entrar e fazer uma visita. Perguntamos se podíamos ir ao jardim, lugar de tantas memórias. Levou-nos entusiasmado, até porque hoje em dia tem lá uma pequena oficina onde trabalha madeira e guarda lá um retrato de alguém que seria da nossa família e que o vai acompanhando e inspirando no seu trabalho. Quando chegamos ao meio do jardim e olhamos para dentro da oficina…tínhamos a Catherine à nossa espera, como que a dizer-nos o que tantas vezes nos repetia: Não tenham medo!

catherine

No verão de 2018 voltámos, desta vez com toda a família. Para entender melhor a História da Casa Velha como parábola do Cuidado da Casa Comum e de toda a Família Humana, e a sua história nesta Casa, era importante conhecerem as suas raízes. É muito importante conhecermos e fazermos memória da nossa história para podermos saber quem somos e ao que somos chamados nesta vida. E é importante  olharmos e celebrarmos juntos essa história, só assim saberemos viver juntos e cuidar juntos desta Casa Comum.

todos baia

Então, Jesus retomou a palavra: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não lhes prestaram atenção. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. (Jo 10, 7-10)

pastora

Louvado sejas Senhor, pela Catherine e pela vida abundante que deixou.

Margarida Alvim, 27 de Janeiro de 2019

 

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