Pessoas Laudato Si – António Joaquim Alvim

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António Joaquim de Sousa Alvim nasceu a 12 de Fevereiro de 1928. É uma raiz muito importante da Casa Velha, da qual era o principal proprietário. Formado em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia em Lisboa, especializou-se em solos, tendo trabalhado grande parte da sua vida como investigador na então Estação Agronómica Nacional (EAN), atual INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária). À data da sua aposentação (1993) era Investigador Principal da EAN. Morreu em Agosto de 2014, 15 dias depois da inauguração da Quinta da Casa Velha Agroturismo, a ocupar os antigos currais das ovelhas da Casa Velha, transformação que nos seus 80 anos foi acompanhando com entusiasmo e esperança.

Nos últimos anos fui ouvindo falar do Tio Toquim em diversas ocasiões, no contexto da Ecologia, nomeadamente nos projectos aTerra e Ca(u)sa Comum, dos quais a Associação Casa Velha foi parceira. Antigos colegas com que me cruzei, falaram-me comovidos e saudosos do seu valor científico e das suas qualidades pessoais. Também eu tenho muitas saudades do Tio Toquim. Da sua sabedoria humilde, que tanto me/nos ajudava. Compreendo bem a falta que faz aos colegas, simbolizando uma perda bem mais profunda, de saberes e competências, todo um património de conhecimento e suporte ao mundo rural que infelizmente se perdeu no nosso país, que pouco ou nada investe na investigação e extensão rurais, tão necessárias para podermos gerir bem os nossos territórios.

Hoje, para escrever este artigo, lembrei-me de ir buscar umas revistas “Mundo Rural” que me passou pouco tempo antes de morrer. Tratava-se de uma revista da LAC – Liga Agrária Católica (Acção Católica Rural), da qual fez parte nos anos 70/80. Referenciou-me particularmente os números entre 1974 e 1980, tempos conturbados em que o receio fez com que ninguém quisesse assumir a Direcção da revista, a qual ele decidiu assumir. Para além de passar a ser Director, o Eng. António Alvim era responsável por um artigo de aconselhamento agrícola, com os mais diversos temas técnicos cheios de indicações práticas suportados por desenhos que ele mesmo fazia. Qual não é o meu espanto ao deparar-me com o nº de Dezembro de 1978 que versava sobre “A situação ecológica mundial e a agricultura do futuro”. Começam a ouvir-se com frequência gritos de alarme sobre o rumo que leva a Humanidade e as dificuldades que se depararão à sua subsistência a médio, e mesmo a curto prazo, como consequência da exploração inconsiderada que se tem feito dos recursos naturais, escreve o Tio Toquim, que sofria verdadeiramente com a degradação dos solos que tão bem conhecia. O actual estado do mundo rural e todo o peso burocrático dos apoios concedidos para o desenvolvimento rural, muito afastados da realidade e das pessoas, conseguiam enfurecê-lo.

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Solo, Terra…não poderia haver melhor imagem para o definir. Porque além de cuidar da Terra, foi terra de suporte para muitos, porque deu muito fruto. Porque estava normalmente invisível, na sombra. Era preciso entrar no seu tempo e no seu mundo, onde gostava muito de acolher todos os que se atreviam a aproximar e sentar ao seu lado e esperar…sim, as conversas eram longas, intervaladas com grandes silêncios solenes, que antecipavam algo que valia a pena ser dito…e escutado! O seu tempo tinha um Senhor, regulado pela Liturgia das Horas, que sempre o acompanhava. O seu sorriso luminoso transparecia Deus, a quem sempre confiou a sua vida. Cumpria o seu trabalho, cuidava da sua família e da gestão de todo o património agrícola familiar como servindo o próprio Cristo. Com ele e por ele trabalhava como leigo comprometido com a justiça e fraternidade.

Toquim era gémeo de Nuno do Carmo, 3º e 4º dos 13 filhos de Francisca e João Alvim. À data do meu nascimento já o pai exercia medicina geral em Ourém. Por isso, eu e o meu gémeo nascemos na Casa Velha em Fevereiro de 1928, tendo como parteiro o nosso pai. Tudo correu bem e, coincidindo o dia do nascimento com o dia da festa do Vale Travesso, foi lá a banda tocar e beber uns copos. (Memórias de infância e outras, António Alvim, Julho de 2013).

 Viveu com o seu querido irmão gémeo até aos 7 anos na Casa Velha, com a sua avó paterna, Júlia, de quem muito gostava e que lhe deixou em testamento metade da quinta, da qual desde muito cedo ficou responsável, em conjunto com 3 irmãos, um dos quais o meu Pai. A Casa Velha foi desde então Casa Comum, gerida com grande sentido comunitário, o que incluía o cuidado com a família e com todos os que lá trabalhavam, vindos da aldeia de Vale Travesso e arredores. Graças à sua generosidade quando os meus pais casaram, ficaram a viver na Casa Velha.

A reorientação da casa desde 2008 foi enraizada em muitos e bons momentos de conversas com o Tio Toquim. Nos muitos silêncios, fui conhecendo melhor todo o seu mundo interior e a Fonte que o alimentava. Com ele aprendi o que é o Bem Comum. Nas mudanças que foram acontecendo, foi acompanhando as intuições de mudança de rumo, com alegria de fundo, partilhando dúvidas mas dando muita força, conselhos, entusiasmando-se com os passos que fomos dando, com muita fé. Acompanhou todo o processo da constituição da Associação Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade.

Ainda não chegou a Festa do Vale Travesso (está quase, este ano será a 24 e 25 de fevereiro), mas podemos ouvir hoje a banda a tocar no Céu. Como homenagem, termino com um excerto do Livro das Horas, de Rainier Maria Rilke, a lembrar o gémeo poeta Nuno.

Em todas estas coisas te venho encontrar,

Para as quais sou bom e como um irmão;

Enquanto semente nas pequenas te vens assoalhar

E às grandes grandiosamente te fazes doação.

 

Eis o jogo de forças estranhamente a aparecer

As coisas atravessam servindo no seu ser

Crescendo nas raízes, nas hastes desaparecendo

E nas copas como um ressurgir se movendo.

 

Rainier Maria Rilke, O Livro de Horas

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