Pessoas Laudato Si – Henrique Alvim

2019-03-13-03.14.24-1.jpgReconhecia-se facilmente pelo seu boné, que lhe protegia a careca, a sua bengala e pelo seu cigarrinho na mão. Gostava da vida no campo, enraizado na Casa Velha, muito agradecido com a sua família, com a sua mulher (vinda de longe) e as suas 4 filhas! Gostava em especial do tempo das vindimas, durante o qual tirava férias. E também de andar com o pastor e as ovelhas e pelos olivais, descobrindo fosseis no meio do que aparentemente seriam só pedras. Com eles fomos crescendo nesta espécie de Galileia, aprendendo a contemplar e reparar em toda a beleza à nossa volta e em tanto que nos é dado sem nada fazermos por isso. Fomos aprendendo a cuidar, a criar, a respeitar, a dar valor ao que tínhamos, a saber partilhar, a partir do orçamento familiar curto e esforçado de que dispúnhamos. Com ele crescemos na ecologia e na fé, ao ritmo dos passos que dávamos todas as noites na varanda a rezar o terço. No fim da vida teve de se deixar conduzir por nós. Sem poder andar, percorríamos as entrelinhas da vinha de carro , aprendendo juntos a reinventar as entrelinhas da Vida.

pastor

Henrique José e Jorge nasceram no Hotel Tivoli em Lisboa, a 13 de março de 1930. Filhos gémeos de Francisca e João Alvim, juntam-se a 4 irmãos (no tal eram 13), os 2 anteriores também gémeos (estes verdadeiros, António Joaquim, anteriormente retratado nesta “crónica” e Nuno do Carmo). Vivendo até aí em Ourém, João Alvim tinha sido colocado como médico nos Hospitais Civis de Lisboa e nessa altura estavam ainda à procura de casa. Henrique, o meu Pai, sempre foi magrinho, o que levou a não ir à tropa. Formou-se em Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia e o seu irmão Jorge como Engenheiro de Minas.

Apesar dos meus tios contarem que o meu Pai era muito de festas, ao contrário do Jorge, muito mais reservado, sonhador e artista (era um grande pintor), a verdade é que desde que me lembro dele, a memória que tenho é do seu desejo de sossego, sendo difícil para a minha Mãe arranca-lo de casa ao fim-de-semana e férias. Bom, é certo que cometeu um grande feito: casar com uma francesa, e para além disso, pedi-la em casamento ao fim de 15 dias de se terem conhecido. Foi em 1965, nessa altura trabalhava na Secretaria de Estado da Agricultura em Lisboa, trabalho que deixou quando casou e vieram morar para a Casa Velha.

Passou então a trabalhar na Direcção Regional de Agricultura do Ribatejo e Oeste, com base em Vila franca de Xira, onde ia três vezes por semana, num tempo onde não havia ainda A1 (ou talvez já a partir do Carregado). Saía de casa de madrugada (num Volskwagen carocha e mais tarde num Renault 4L, carros de serviço) e voltava noite cerrada. Durante a semana pouco estávamos com ele. Ao domingo tínhamos uma grande recompensa, ir pastar as ovelhas juntos em família, com um grande piquenique. Também dávamos grandes passeios, de onde sempre trazia algum fóssil, tinha um olho clínico. Quando saiamos de carro, gostava de imaginar animais em cada nuvem com que nos cruzávamos e começava a contar-nos histórias. Houve uma fase em que volta e meia tínhamos uma manhã de domingo de grande excitação, em frente da nossa micro televisão a preto e branco, onde ele iria aparecer no programa TV Rural, com o Eng. Sousa Veloso.

Era acusado de ser “demasiado honesto”, o que já revela as dificuldades que foi enfrentando ao longo da vida. Que bom ter um Pai reconhecido como “demasiado honesto”, com tudo o que isso representou para nós de Boa Terra para crescer e para aprender a cuidar da Casa Comum.

Acabei por ser a única a encaminhar-me para as ciências, o que o encheu de grande alegria. A verdade é que me influenciou muito na escolha do curso, e lá fui eu parar também ao Instituto Superior de Agronomia. Desde pequena que era bastante aplicada e tirava boas notas, motivo que o levava a falar com orgulho aos colegas da sua Caçula/ Benjamina, recordações que guardo associadas à Feira Nacional de Agricultura em Santarém, ponto alto do nosso ano na nossa infância e adolescência, onde festejávamos os meus anos. Muitas vezes dava-me queijos como presente de anos, será por isso que hoje em dia me dou sempre por satisfeita com qualquer queijo à frente? Mas quando fiz 7 anos, deu-me uma cassete dos ABBA, grupo que eu nem conhecia, mas que ele gostava muito! Foi uma boa surpresa para variar da música clássica que sempre ouviamos com ele (e que hoje tanto agradeço!).

Ao longo da sua vida, a sua honestidade revelou-se de forma escondida (ou não fosse ele também José), perante a família, o trabalho, perante Deus. Se a minha Mãe, como estrangeira que era, abriu os horizontes da Casa Velha, quer na forma de arriscar com criatividade micro negócios (apicultura, produção de queijos, no meio de aulas de piano ao domicilio e o cuidar do dia a dia de nos as 4), quer nas relações com o mundo, o meu Pai era a terra firme, cheia de história.

foto carvalho

A sua grande preocupação era o nosso sustento e também o seu sentido de missão no seu trabalho e na gestão da Casa Velha. Foi acompanhando do lado das políticas toda a mudança do mundo rural após a entrada na Comunidade Económica Europeia. Neste contexto, arriscou vários caminhos para o património rural da família, gerido comunitariamente, os quais nem sempre correram bem. A sua humildade deve-se ter ido aprofundando. Perante o declínio dos sistemas agrícolas de minifúndio, preocupado com o abandono rural da região e o seu impacto económico e social, arriscou dar o pontapé de saída de uma Cooperativa Agrícola e mais tarde da Adega Cooperativa de Ourém. Foi um fardo pesado de mais. As muitas preocupações e responsabilidades terão sido uma das causas do AVC que teve em 1995, a poucos meses da reforma, altura em que ficou hemiplégico.

De um Pai muito ausente, ou melhor, muito Terra de suporte e segurança, passámos a ter um Pai presente e dependente, tinha eu 21 anos e andava no 3º ano da Faculdade. É engraçado perceber como estes anos que foram tão difíceis para ele e para nós (as suas bombeiras), abriram e foram tão importantes para o que a Casa Velha é hoje. Foi do termos sido levadas a cuidar dessa fase, que nasceu o que hoje tão enraizado na nossa identidade: o Cuidado uns dos outros, da Terra e da relação com Deus.

Viveu ainda 5 anos, tempo de graça para nos aproximarmos de fundo. A sua debilidade abria-nos essa oportunidade. Foi um tempo de crescimento no Amor, em tudo o que tem de dor e de transcendente, de entrega e relação na incapacidade, no tesouro existencial que cada um é, muito para além do que faz ou fez. A relação com a minha Mãe, de um amor que era verdadeiramente imagem de Deus, sustentou-nos nesta fase e fez transbordar a taça da Casa Velha para ser o que é hoje. Morreu dia 18 de Setembro de 2000, no dia em que iam começar as vindimas na Casa Velha, actividade que tanto gostava.

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Naturalmente, ao longo dos anos, fui assumindo a responsabilidade da gestão agroflorestal a seu cargo e dos irmãos, o que me tem dado um novo entendimento de toda a sabedoria com que geriam esta terra, desde logo visível pela composição de diferentes espécies florestais a ocupar o solo, consoante as suas características edafo-climáticas. Entre outras coisas vou lidando com os actuais incentivos para o desenvolvimento rural. Há uns meses tivemos visita de fiscalização por parte de uma equipa técnica de Santarém. Um dos técnicos tinha ainda trabalhado com o meu Pai, quando soube que eu era filha, o seu semblante transfigurou-se…recebi indirectamente o sorriso luminoso do Pai Henrique, que tantas vezes sinto sobre mim, a abençoar-me e pacificar-me nas minhas dúvidas e inquietações ao pisar esta Terra, bem como a alegrar-se com o novo rumo tomado.

Partilho, para concluir, o conselho que me escreveu na fita de fim do curso, que nos pode guiar no Cuidado da nossa Casa Comum: ler e meditar o livro da Sabedoria. Amen.

 

Margarida Alvim, 13/03/2019

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