(Deixar-se) Criar

cadernos

Começamos esta semana o Verão. Despedimo-nos da Primavera com este testemunho da Mariana, participante no Rezar no Campo de 31 de maio a 2 de junho, um tempo para rezar, parar, estar, trabalhar, escutar, aprender, criar e celebrar em comunhão com a Criação.

O meu vôo de regresso à ilha Terceira estava marcado para o passado sábado, dia 1 de Junho. Quis Deus que adiasse essa viagem para ir ao Seu encontro no que se viria a revelar um fim-de-semana evocativo das memórias mais queridas da minha infância.

Em função desse propósito, inquietou-me Ele com uma curiosidade imensa de conhecer a Casa Velha – da qual dois colegas me haviam falado quatro anos antes no Porto – e, mesmo já tendo expirado o prazo de inscrição para “Rezar no Campo”, permitiu que a minha presença fosse aceite.

Ao passar o portão que delimita o edificado, logo me senti acolhida e estimada pelos que habitam a Casa Velha. No alpendre, reparei nos vasos com várias espécies de sardinheiras, entre as quais reconheci as mesmas sardinheiras que a minha avó costumava regar ao fim da tarde na sua janela em Tomar, as mesmas sardinheiras que terei de regar quando voltar para o meu apartamento nos Açores. Ladeando a parede sudoeste da Casa, uma roseira no auge da sua cenoplastia exibia pequenas flores pálidas e muito aromáticas, as popularmente chamadas “rosas de Santa Teresinha”, as mesmas rosas que o meu avô colhia no quintal das traseiras, com as quais a minha avó enfeitava o seu pequeno altar a Nossa Senhora.

Ao jantar, já se encontrava completo o grupo que Deus escolhera reunir para se encontrar com Ele naquelas circunstâncias, num final de Primavera. Lá reencontrei um dos colegas que mencionei há pouco, o qual não via há quatro anos e que revi com alegria.

O dia terminou, naturalmente, em oração, usufruindo da situação remota da quinta, a qual, porque afastada da iluminação pública, favorece a observação dos astros no firmamento. Nessa mesma noite, o Padre Francisco repetiu, sem o saber, a mesma lição que o meu avô me havia dado vinte e poucos anos antes sobre como se orientar no espaço em função da Estrela Polar; a origem dos nomes das constelações; o entendimento que os Antigos tinham do divino, projectado na forma de episódios míticos, pouco a pouco desvendados pela película cinematográfica que é o céu nocturno em ilusória rotação. Nesta última noite de Maio, vi com mais clareza as estrelas incontáveis, vários aviões em movimento, duas estrelas cadentes, e a constelação do Escorpião, o meu signo ascendente, a ascender lentamente sobre mim, deitada na erva e pasmada perante o mistério da Criação, totalmente incompreensível.

Enquanto subsistir a terra,
haverá sempre a sementeira
e a colheita,
o frio e o calor,
o Verão e o Inverno,
o dia e a noite.
(Gn 8,22)

leitura

Os dois dias que se seguiram foram repletos de sol, luz e calor.

O grupo composto por pessoas de várias idades (incluindo progenitores e respectivos descendentes) repartiu-se em diversas tarefas ao ar livre, entre as quais: a construção de uma capoeira; o arranjo de um sistema de chuveiros; e o desbravar de um terreno, no qual se mostrou evidente, por entre as muitas ervas daninhas, a força de sobrevivência de vários exemplares de lúcia-lima, cidreira e hortelã. Esta última actividade, em especial, constituiu um exercício de paralelismo com a regra de ordenação da vida e dos afectos ao estilo de Santo Inácio de Loyola. No decorrer do trabalho comunitário, intercalavam-se períodos de socialização com outros de silêncio. A actividade manual e a actividade espiritual confluíam num mesmo sentido até se tornarem uma só. Ao nível das relações humanas, o clima era de aceitação mútua e a empatia gerava-se com facilidade. Enquanto cuidávamos da Casa – e uns dos outros – Deus cuidava de cada um de nós, acredito que actuando no íntimo de cada indivíduo segundo as suas carências específicas naquele dado momento.

Será possível transpôr esta sanidade para um contexto social de não crentes? Apesar de ter tido a bênção de uma educação católica, com ligeira influência da espiritualidade inaciana, ainda me espanta o acontecimento de um rol de vidas, mais ou menos dispersas, concorrendo, em dado momento e local, numa semelhante predisposição de auto-análise, confiança em Deus e amor ao próximo. Deus concede-nos a liberdade, e com isso responsabiliza-nos a tomar voluntariamente parte do seu plano de criação. O que fazer quando o zeitgeist parece contrariar esse propósito?

Outra actividade muito apreciada neste fim-de-semana foi uma que apelou directamente ao nosso sentido estético e simbólico: desenharmos, em acção concertada de grupo e recorrendo aos mais variados materiais e técnicas, a Criação (isto a pretexto de uma leitura do Livro de Job que trata de animais selvagens, Job 39). Neste trabalho de grupo, foi interessante apercebermo-nos das peculiaridades psicológicas de cada um manifestadas no acto criativo e nas obras daí resultantes.

Antes da despedida final, cada um de nós partilhou as suas impressões da experiência, do que destaco o seguinte: para os que vieram em família, a sua unidade foi fortalecida em Jesus. Para mim, fica a lição de confiar que, a cada “escuridão do espírito”, o Pai nos protege e guia para uma Primavera renovada. Sejamos então cria(nça)s que se deixam cuidar pelo Criador.

Mariana Magalhães Mota
Rezar no Campo – Primavera, 31 Maio a 2 Junho

Todos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s