A fragilidade como lugar de conversão

Iniciamos hoje o tempo da Quaresma, 40 dias de preparação para a Páscoa. Será ainda tempo de confinamento que nos separa uns dos outros. Paradoxalmente, poderá ser um tempo que de facto nos aproxima, pelo que nos oferece na possibilidade de uma conversão mais ajustada e integrada, que nos religa a Deus, aos outros, à terra.

A pandemia que atravessamos surge como expressão de uma realidade doente já há muito, marcada pela fragmentação e desequilíbrio do nosso modo de viver, de nos relacionarmos uns com os outros, com o planeta. A este propósito, em 2015 escrevia-nos o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si: Se «os desertos exteriores se multiplicam no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos», a crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior[1].

Lembra-te que és pó e em pó te hás de tornar.[2] É com esta marca que iniciamos a Quaresma. Na liturgia deste ano, o profeta Joel adverte-nos rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso DeusO Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.[3]. Na verdade, iniciamos este tempo com o coração desgarrado e rasgado, profundamente necessitado de ser resgatado pelo Amor misericordioso de Deus. A fragilidade que sentimos pode desmontar as nossas estratégias e orações, tornando possível o simples e humilde abandono, que se torna húmus – terra beijada por Deus. Esta Quaresma precisamos de nos deixar aí, enraizando em nós a maravilhosa certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos desesperador, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido! O Criador pode dizer a cada um de nós: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia» (Jr 1, 5). Fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, «cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário».[4]

Um coração agradecido e humilde reencontra a fonte da vida, o cordão umbilical que o liga ao Criador e às outras criaturas como parte da Criação. Volta a unificar-se na pertença e na participação da História maior que o acolhe e envia, tornando-se um coração compadecido, capaz de acolher e deixar-se comover pelo grito da terra e dos mais pobres, ao ponto de se reconhecer e renascer ao gritarmos juntos. A fragilidade que todos experimentamos pode ser a Terra Prometida em que nos integramos e reconhecemos existencialmente ligados, ao ponto de nos convertermos em lugares de comunhão, de cuidado.

Fomos há um ano surpreendidos por um vírus microscópico que nos arrastou globalmente numa tempestade inesperada e furibunda[5], que teima em prolongar-se. Densas trevas continuam a cobrir-nos, atingindo as nossas famílias e comunidades. Perante a devastação de vidas e a crueza do distanciamento a que estamos submetidos, o esforço de nos mantermos resistentes clama cada dia a nossa energia. Fazemos por continuar a seguir com a vida, adaptando-nos, (re)situando-nos, perscrutando o horizonte, alimentando o sonho do regresso à normalidade, à espera que acabe esta tormenta. Mas a tempestade prolonga-se e sentimo-nos bloqueados, sem forças para atravessar passo a passo o nevoeiro. Que bom que este tempo de Quaresma nos possa abrir à Luz que nos ilumina, ao Sopro que nos recria, à Água viva que nos abençoa, ao Alimento que nos regenera, deixando ecoar em nós os apelos do Papa Francisco na Encíclica Laudato Si. Entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.”[6]Talvez a grande oportunidade do tempo que atravessamos seja a nossa experiência comum de fragilidade, que nos ajuda a nos constituirmos como um «nós» que habita a casa comum. Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós mesmos.[7]

A fragilidade tem-se vindo a atravessar como caminho na Casa Velha, pelo que nos ajuda a viver e crescer a partir do lugar certo, como criaturas amadas, chamadas a amar e a cuidar. Guia-nos Jesus, o Bom Pastor, que nos congrega a partir de contextos muito diferentes, ensinando-nos a esperar uns pelos outros, a estar e a colaborar, ao ponto de nos constituirmos como Comunidade. Fazendo memória agradecida dos últimos 10 anos, pudemos reconhecer recentemente como lugares de conversão três estados identitários – frágil, inacabado e simples[8]. Embora tipicamente considerados fraquezas ou ameaças, e, portanto, aparentemente paradoxais com a nossa evolução, acreditamos que são potenciadores da sustentabilidade na fidelidade à nossa Missão. Não será também um bom fio condutor para vivermos esta Quaresma?

Este é o tempo favorável para nos reconhecermos…

1_Amados

Que este ano, em cada uma das nossas casas, possamos iniciar a quaresma a respirar juntos, alargando a bênção das cinzas com a lembrança de que somos filhos muito amados –“Ainda que atravesses vales tenebrosos, não temas porque Eu estou contigo.” (salmo 23).

Que a nossa oração seja sobretudo o recuperar do sussurrar de Deus por cada um de nós, deixando que o Seu Sopro nos pacifique e unifique, recuperando a nossa raiz mais profunda no Amor de Deus. Não temas. Que seja um tempo que nos devolve o lugar certo e justo, bem situado, na Criação, como criatura amada, seja qual for a circunstância. Deixemo-nos reparar pela vida que nos rodeia, pela Criação, recordando e agradecendo tudo e todos os que até agora nos cuidaram/ sustentaram.

2_Frágeis

Que a fragilidade seja como brecha que nos torna transparentes e permeáveis à Graça que nos pode ligar, transformando a nossa autossuficiência em interdependência humilde e agradecida. Que fragilidades quero neste tempo entregar e partilhar como lugar de conversão e comunhão? O que o Senhor não multiplicará a partir destas nossas esmolas!

3_Incompletos

Que este tempo em suspenso, incerto, torne as nossas errâncias, ansiedades e impaciências em peregrinação, na alegria de nos sabermos já salvos embora ainda a caminho; a alegria de nos reconhecermos como canal por onde passa a Vida que nos é dada e que se completa na medida que se dá…até que tudo esteja Completo na plenitude dos tempos. Que neste tempo possamos experimentar que “a existência de cada um de nós está ligada à dos outros: a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro.”[9]

4_Simples

Não é tempo de grandes planos e estratégias. É tempo de pequenos passos certos que nos ajudem a atravessar as incertezas. Pequenos passos quotidianos, repetidos, de aproximação, que nos vão abrindo o coração. O confinamento limita-nos a relação e tolda-nos o coração. Andamos como ovelhas desgarradas, precisamos de amparo, de proteção, de direção, de nos sentirmos em casa, de nos sentirmos chamados e encontrados pelo Pastor. Precisamos cada dia de dar passos concretos, da proximidade, da presença, não nos deixando afundar no desânimo.

Considerando a minha realidade, de quem posso cuidar? Por quem posso rezar? Que tarefas esperam a minha atenção para serem cumpridas?

5_Unidos

Que possamos viver este tempo experimentando o gosto do outro e a força que nos vem de nos sabermos acompanhados, pequenas comunidades que a todos elevam, em Comunhão com o Senhor que nos resgata e dá vida. Procuremos ser Comunidade de Comunidades, espaços e tempos que são Páscoa, de onde brota nova vida. Comunidades que nos abrem o entendimento, que se geram não por si, mas pela Luz que nos congrega, liga, reconcilia ao ponto de nos tornar Casa – Tenda – Abrigo, sólida e permeável/ extensível…aprendendo a dar a vida.

Quem podemos cuidar juntos neste tempo? Como podemos contemplar juntos a beleza da Criação? Que canto do jardim aguarda desde há muito o nosso cuidado?

6_Encontrados

Que nestes dias possamos ir repetindo teimosamente o Salmo 23 (do Bom Pastor), deixando-nos embalar, guiar, ungir, descansar…até que seja vida em nós e ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal tenha medo porque o Senhor está comigo. Que a partir do consolo de me saber encontrado, possa com atenção e ternura encontrar e consolar os que cruzarem neste Caminho.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.

Em verdes prados me faz descansar

e conduz-me às águas refrescantes.

Reconforta a minha alma

e guia-me por caminhos retos, por amor do seu nome.

Ainda que atravesse vales tenebrosos,

de nenhum mal terei medo

porque Tu estás comigo.

A tua vara e o teu cajado dão-me confiança.

Preparas a mesa para mim

à vista dos meus inimigos;

ungiste com óleo a minha cabeça;

a minha taça transbordou.

Na verdade, a tua bondade e o teu amor

Hão de acompanhar-me todos os dias da minha vida,

e habitarei na casa do Senhor

para todo o sempre.

Boa Quaresma!

Margarida Alvim, 17.02.2021


[1] Laudato Si 217

[2] Liturgia de 4ª feira de cinzas

[3] Joel 2, 12-18

[4] Laudato Si 65

[5] Urbi et Orbi, 27 de março 2020

[6] Laudato Si 2

[7] Fratelli Tutti 17

[8] Plano Estratégico Casa Velha 2020 – 2025

[9] Fratelli Tutti 66

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