De passos e de passagens

Disto me tem falado a Casa Velha e quanto adiante se mostrará.

por José Frazão Correia sj

Passos e passagens, um quase refrão que se entoa desde o Domingo de Páscoa.

Também na Casa Velha se tem andado por aqui. Múltiplos passos e tantas passagens.

Os passos piedosos, mas tristes, de Maria Madalena levam-na ao sepulcro. Para aconchegar e perfumar um corpo morto, sepultado à pressa. Era tudo o que restava. E a passagem, pela pergunta – porque choras? e pelo timbre da voz com que ouve – Maria! Reconhecer-se reconhecida, a grande passagem. A tal reconnaissance.

Os passos de corrida de Pedro e de João. Para confirmarem o que ouviram dizer. João corre mais rápido. Pedro vai a trás. Quem não foi capaz de seguir até à cruz, precisa de aprender com quem foi fiel até ao fim. Chegados ao sepulcro vazio, mas em ordem, a passagem pascal. Entraram. Viram. Acreditaram. Jesus não está entre os mortos. Vive. Precedê-los-á vivo na Galileia da vida.

De costas para Jerusalém, os passos de desistência a caminho de Emaús. E os passos de um desconhecido – inesperados, consoladores, iluminantes.Por mais duros que seja o caminho, é sempre possível um toque de graça – fica connosco. E a passagem ao entardecer, à mesa. Uma vela acesa. Pão e vinho. A bênção. Abriram-se-lhe os olhos e reconheceram-no. E, de novo, outros tantos passos de regresso. De recomeço. Para contar aos outros como se lhes tinha aberto a inteligência e aquecido o coração. – Vimos o Senhor.      

Os passos dos onze que não levam a lado nenhum. Fechados numa sala. Com medo. E a passagem para a paz, pura graça do Ressuscitado que se faz presente entre eles. Não só a um. Não só a outro. Agora, entre eles. Novo sopro. Nova vida. O ofício de consolar. Mas faltava Tomé dos passos perdidos, errante, afastado dos irmãos. Não basta que lhe digam que viram ou que ouviram. É preciso tocar. E a passagem quando, finalmente, é tocado pelas feridas da paixão. – Meu Senhor e meu Deus. Que bela profissão de fé. Já não precisará de ver, porque fora visto. Nem de tocar, porque fora tocado.

Como Madalena, como Pedro e João, Cléofas e o outro colega de caminho, como os onze e Tomé, como tantos outros, assim nós. Assim a Casa Velha. Em trabalhos de parto. Nascer de novo, pelo Espírito, mesmo se velhos. Sobretudo quando velhos.

De primavera

A primavera vai dizendo a páscoa sem a nomear. Inicia ao sentido pascal, despertando, implicando cada sentido. Por ela, entrevemos a vida nova. Pressentimo-la. Cheiramo-la e saboreamo-la. Tocamo-la. E alegramo-nos nela. Parecia morta, a natureza. Mas, misteriosamente, renasce. De novo. Surpreendente. Vigorosa. Bela. Diante de tão desarmante dádiva, como não vir para fora? Como não celebrar? Como não bendizer? Reaprender a dizer (o) bem e a fazer (o ) bem será fruto saboroso deste tempo primaveril-pascal. Quase sem motivo. Só porque sim. Não florescem as rosas só porque florescem? A constante memória fotográfica da Margarida é nota desta graça.      

De vocação

Li recentemente que tendemos a fazer coincidir vocação «com um “destino” já escrito, que cada ser humano deveria descobrir, sob pena de falhar a própria existência. Em vez de ser o título de um diálogo de liberdade, tornou-se demasiadas vezes o conteúdo de uma caça ao tesouro que culmina na frase: “eu tenho a minha vocação”. Mas que objeto é e o que é preciso fazer para a “possuir”? Duvidamos que Pedro soubesse ter a vocação de apóstolo. Encontrou um homem, seguiu-o, escutou-o (não significa que o tenha compreendido), amou-o (e também o traiu) e por ele deu a vida. Neste sentido, Deus chamou-o a si (vocatus) e neste sentido o homem – toda a humanidade – é esperado por Deus no termo da sua vida» (Stella Morra, Incantare le sirene, 2019).

Eis a vocação: ser esperado. Em liberdade.

Também, aqui, parece ser questão de passos e de passagens. E se imaginássemos o paraíso, não no início, mas no fim? Não o que perdemos, irremediavelmente, mas o melhor que ainda nos espera. Não a reserva natural imaculada, mas a bela e justa cidade edificada. Não será esse in-finito que mantem vivo o desejo, radical movimento de abertura nunca saciável? Apesar de tudo, na difícil bênção da finitude.

“Simples”, “frágil”, “inacabada”, mas não por isso menor, são timbre da voz que chama a Casa Velha. Na tensão – aberta, custosa, promissora – entre carisma e ordem, natureza e cultura, planificação e informalidade, trabalho e descanso, solitude e conversação, hospitalidade e recolhimento, vai-se “constituindo como lugar de encontro, catalisador de conversão ecológica”. Se virmos bem, nos mosteiros, o claustro é o lugar simbólico que dá corpo a estas tensões. Talvez o claustro possa ser outra forma de dizer o que espera a Casa Velha.

De passos e de passagens, de primavera e de vocação.

Bom passeio pascal.

José Frazão Correia sj

20.04.21

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