Seis anos da Encíclica Laudato Si: o que celebramos?

por Margarida Alvim

Todos experimentamos, de uma forma ou de outra, a resistência à mudança, quer ao nível pessoal (dificuldade em mudar hábitos, em sair das nossas zonas de conforto, em lidar com a diversidade, em enfrentar o desconhecido), quer ao nível comunitário (dificuldade em lidar com a diversidade de opiniões, de maneiras de estar, de esperar uns pelos outros), quer necessariamente ao nível da forma como nos organizamos em sociedade aos diferentes níveis (compatibilizando o bem parcial com o Bem Comum).

Perante uma doença, uma crise, um desastre, podemos ser forçados, obrigados a mudar. Ainda assim, as mudanças que se operam correm muitas vezes o risco de ser parciais, epidérmicas, provisórias, não levando a uma transformação integrada e integral, geradora de mais vida para todos. Hoje em dia, estamos já rodeados de uma forma bastante generalizada de imagens, discursos, receitas e boas práticas de sustentabilidade, ecologia, responsabilidade, o que é já em si bom e também fruto do caminho de sensibilização e transformação que vamos fazendo como sociedade e como Igreja. Mas em que raiz estão assentes, até que ponto respondem às questões existenciais chave, até que ponto geram justiça, dignidade, felicidade para todos e com todos?

Parece-me que, para lá das mudanças já alcançadas, o que mais podemos agradecer e celebrar na Encíclica Laudato Si, terminada a 24 de maio de 2015, é o caminho de conversão interior a que nos leva se a lermos com apropriação na primeira pessoa, individualmente e coletivamente. Mais do que um documento de posicionamento doutrinal da Igreja Católica ou um manual com receitas para um desenvolvimento sustentável, a força da Laudato Si está em ser uma proposta de caminho de aplicação universal, uma chave de leitura e de ação. Dando um passo atrás nas considerações das respostas urgentes que buscamos, leva-nos ao ponto de partida necessário onde todos nos podemos rever e reconhecer. Desvenda as motivações certas, sugerindo um mergulho mais profundo e necessário num percurso simultaneamente individual e coletivo, enraizado no amor e não nas nossas capacidades, possibilidades, perspetivas, desejos, acarinhando os pequenos passos de cada um, geradores das grandes mudanças necessárias e ajustadas. Como podemos cuidar juntos sem uma consciência de origem comum, sem nos experimentarmos como um nós? Cuidar do mundo que nos rodeia e sustenta significa cuidar de nós mesmos. Mas precisamos de nos constituirmos como um «nós» que habita a casa comum. (FT 17). Este é o grande desafio, apontado pela Laudato Si e aprofundado pela recente Encíclica Fratelli Tutti.

Fruto do que temos experimentado a partir da Associação Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade, em diálogo com outras experiências ao nível local, nacional e internacional, aponto três grandes alicerces – alavancas de mudança da Laudato Si que revelam como esta Encíclica tem sido marcante e consequente na resposta ao urgente desafio de proteger a nossa casa comum (LS13), continuando a inspirar e mobilizar mudanças sistémicas de estilos de vida e de modelos de desenvolvimento: a motivação adequada para a mudança, o princípio e finalidade dos processos de mudança, a proposta/caminho de mudança que aponta.

A MOTIVAÇÃO

Toda a mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo (LS 217). Não se trata tanto de propor ideias, como sobretudo falar das motivações que derivam da espiritualidade para alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Com efeito, não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem «uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária (LS 216).

Não mudamos por decreto. Mudar exige arriscar, sair, desequilibrar-nos para fora de nós mesmos. Uma mudança sistémica só pode ser gerada a partir de uma conversão interior, um clique que nos abre e mobiliza. Embora a Laudato Si comece por apontar um grande diagnóstico da realidade que nos expõe ao choro da Terra e dos pobres (que só por si deveria romper a nossa dormência), o caminho que nos leva a percorrer é pela positiva, a partir de uma história de amor, não de terror. O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor. (LS 12) Só cuidamos o que conhecemos e amamos. Tomando consciência da nossa própria história de sermos cuidados, amados, germina em nós o desejo, a vontade de amar e cuidar, mesmo não sabendo como, lançamo-nos, a partir não de nós mesmos, com as nossas ideias e capacidades, mas fiados, humildes e agradecidos, num amor prévio que nos sustenta. A motivação adequada descobre-se na contemplação da História maior que nos ultrapassa e integra. É este o movimento que o capítulo 2 da Laudato Si provoca, caminho que levou ao início da conversão ecológica da Casa Velha na Casa Comum que hoje é. Ao longo dos anos fomos entendendo que provocar esta tomada de consciência é parte relevante da nossa missão e intervenção: que cada um que passa e que a Comunidade que aqui se vai estruturando, possa reconhecer a sua/ nossa história de cuidado, os lugares e as relações que nos cuidam e acolhem sem condições, a partir do qual nos sentimos parte da Casa. Só a partir daí se poderá desencadear a “paixão pelo cuidado do mundo”.

O PRINCÍPIO E FINALIDADE

O Criador pode dizer a cada um de nós: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia» (Jr 1, 5). Fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, «cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário».(LS 65)

A cultura do cuidado nasce da consciência de sermos cuidados, bem como da falta de sermos cuidados. Fomos criados para o amor e para amar. Deus cria-nos à Sua imagem e tudo o que cria é bom. A minha vida, a minha história enxerta-se no Bom e no Bem, que precisa de mim para se comunicar. Este é o princípio e o fim que nos aponta a Laudato Si, conferindo valor a todas as criaturas, simplesmente por serem criaturas. E quão difícil é reconhecer este valor do ser, muito para lá da utilidade, da capacidade, na nossa relação com os outros mas também na aceitação de nós mesmos. Quando me perguntam que papel deve ter a Igreja na aplicação da Laudato Si, antes de qualquer outra coisa, aponto esta missão urgente de ajudar cada pessoa (seja nas catequeses, no acompanhamento de casais, jovens, na formação de religiosos) a reconhecer-se como filho/a muito amado/a, desejado/a, escolhido/a para ser “instrumento precioso e único no cuidado da Criação”. Chamados a ser “apenas” instrumentos, numa Orquestra maior, que só pode revelar a Beleza da Sinfonia na articulação harmónica com os outros instrumentos.

Com frequência ouvimos na Casa Velha – “sinto-me em casa!”. Esta é uma experiência profundamente reparadora e detonadora de uma vocação para o cuidado, de uma apropriação generosa e livre pelo cuidado da Criação na sua vida concreta, levando em frente os seus sonhos e projetos. Esta foi a experiência basilar que permitiu o início do projeto Casa Velha, uma experiência partilhada com outros, que abre em nós a urgência de poder apontar e acompanhar este caminho para os outros e com os outros, como parte da nossa missão, fazendo eco das grandes questões a que a Laudato Si nos conduz: Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? … Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra.(LS 160)

Quão importante é abrir esta certeza e este caminho em cada pessoa. Este é um eixo essencial do programa de educação e espiritualidade ecológica da Casa Velha, processo de reconhecimento de uma identidade que é ao mesmo tempo uma vocação a que todos somos chamados. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspeto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa. (LS 217).

Ao longo do tempo, ainda antes da encíclica Laudato Si vir à luz, fomos reconhecendo e tomando como modo de vida Casa Velha, oito pilares que são hoje reconhecidos como valores desta Obra e que tanto ressoam o capítulo 6 da encíclica: Viver abertos e disponíveis, agradecidos, sabendo esperar, com pouca tralha, comprometidos e atentos, em comunhão, com alegria. Ao longo dos últimos 10 anos, a fragilidade e simplicidade da Casa Velha permitiu acolher e integrar todos os que se aproximaram e tomaram parte na sua reconstrução/ conversão. Todos eram necessários e podiam de alguma forma contribuir para a transformação exterior da garagem em Capela do Bom Pastor, do palheiro em Albergue, dos currais das ovelhas em alojamento e mais recentemente do galinheiro em casa de apoio aos grupos que aqui se reúnem. Cuidar juntos da horta ou nos trabalhos de limpeza de matos para a prevenção de incêndios foi permitindo a germinação do “nós”, do louvor e da reverência diante da Terra de que também somos parte, da comunhão com outros lugares e pequenas comunidades/ casas que, como aqui, cuidam de uma mesma Casa Comum. A conversão exterior foi/ vai acontecendo ao ritmo da conversão interior pessoal e coletiva, ao ponto de hoje nos reconhecermos como Comunidade chamada a uma vocação comum neste lugar, ou através deste lugar, ser “Casa Velha” noutras paragens, com outras comunidades.

O CAMINHO PROPOSTO

A partir de um diagnóstico dos problemas e de um retrato da realidade, da tomada de consciência das motivações adequadas e do princípio e fim do nosso cuidado com a casa comum, a Laudato Si propõe-nos um Caminho concreto de conversão interior, aplicável a qualquer realidade e nível, permitindo o mútuo reconhecimento e a efetiva colaboração, geradora de um sentido de pertença e de comunhão catalisadores do cuidado pela nossa Casa Comum. Um caminho que reflete de modo simples, com linguagem a todos acessível, ilustrada por exemplos que permitem a proximidade e apropriação do processo proposto, algo que sinto como novo no conjunto dos documentos da Doutrina Social da Igreja (DSI).

Embora a estrutura proposta pela encíclica seja o conhecer – refletir – agir próprio do património da DSI, podemos reconhecer um modo de proceder específico e frutuoso, que expressa o louvor, a reverência e o serviço: contemplar – discernir – tomar parte/ agir como instrumento. O objetivo de conhecer como está a nossa casa, unindo as diferentes fontes de conhecimento (da ciência, da fé, da escuta da própria realidade), não é recolher informações ou satisfazer a nossa curiosidade, mas tomar dolorosa consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar (LS19), bem como reconhecer internamente, personalizadamente, a raiz mais profunda do cuidado como resposta ao dom do amor, a partir da contemplação da nossa própria história como parte de uma História maior. Este passo permite trilhar um caminho de escuta e ponderação ancorado no diálogo, através do qual se vão discernindo sem autorreferencialidades e com criatividade caminhos possíveis, capazes de desencadear processos partilhados de transformação.

E não se pense que estes esforços são incapazes de mudar o mundo. Estas ações espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível constatar; provocam, no seio desta terra, um bem que sempre tende a difundir-se, por vezes invisivelmente. Além disso, o exercício destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo. (LS 212) Esta talvez tenha sido a citação da Laudato Si mais repetida nas mais de 70 conversas/ apresentações/ conferências/ projetos de educação/ recursos em que a Casa Velha foi chamada a tomar parte nos últimos 6 anos, partilhando este caminho com crianças e adolescentes de diferentes escolas, comunidades religiosas, comunidades paroquiais, equipas de casais, campos de férias, encontros académicos, encontros de formação, redes de ONGD e famílias inspiradas a tomar caminhos semelhantes.

Sim, passados seis anos, podemos cantar com muita alegria e esperança, Laudato Si!! Obrigada Papa Francisco!

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